Sábado, 21 de Julho de 2007

A.

M. é brasileiro, arquitecto e investigador em renovação urbana. Já trabalhou para uma ONG (“Ongue”, como diz) nas principais favelas do Rio, a tentar criar urbanismo naqueles morros. E fala com muita alegria dessa experiência.

Encontro-o pela segunda vez. Continua afável, sempre muito interessado por tudo e sorridente.

Ao almoço pede polvo. Que adora. M. nunca come carne (por opção, não por religião, diz-me). Ele é judeu. Pergunta-me se ainda há muitos judeus em Portugal. Não há.

Conta-me então que ele descende de judeus da Península Ibérica que fugiram durante a inquisição. Exilaram-se na Holanda no sec. XVII. Depois, no sec. XIX, foram para Cracóvia, na Polónia. Daí o apelido que transporta, Olender, forma como ficaram conhecidos na altura os judeus que vinham da Holanda.  

Depois, durante a II Grande Guerra, foram de Cracóvia para o Brasil. Os que conseguiram.

Da família dele só sobreviveu o pai e dois tios. Os restantes foram vítimas do nazismo. O pai de M., entretanto já falecido, nunca lhe contou sobre o que se tinha passado. Não gostava de falar sobre o Holocausto e não queria que o filho soubesse sobre o que o próprio pai tinha passado.   

M. lembra-se de, em criança, perguntar ao pai o que era aquela letra A seguida de uma série de algarismos que transportava no braço, e o pai lhe responder: sabes, filho, uma vez, há muitos anos atrás, escrevi aqui um número de telefone de uma amiga e a caneta era tão boa tão boa que o número nunca mais saiu.

O A, soube M. depois, era de Auschwitz.

radiomafia às 01:31
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3 comentários:
De purita a 26 de Julho de 2007 às 12:12
gulp!
De blog to be announced a 31 de Julho de 2007 às 14:17
Tomei a liberdade de explorar o teu blog, o qual acedi através do da malta que anda nas "margens do Cuanza". Achei imensas semelhanças com aquilo que às vezes me dá na telha publicar. Porém este post despertou-me a atenção. Não só pelo conteúdo em si, mas pelo facto de que em Setembro vou ensinar, pela primeira vez, uma módulo sobre anti-semitismo e o holocausto... achas possível contar parafrasear esta história. Tenho a certeza que as minhas alunas iam adorar.
De radiomafia a 1 de Agosto de 2007 às 09:22
Sim, claro que podes contar.
É unicamente uma história entre as milhões que existem sobre os anos mais negros da Europa. Simplesmente, cruzei-me com esta...
(qualquer coisa mais, usa o email acima no blog)

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